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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Capitalismo e liberdade - os presos políticos da democracia

CAPITALISMO E LIBERDADE



Se aprovado, Estado de Carajás será o mais violento do país

Guilherme Balza

Em São Paulo

·        "Todas as lideranças no Pará já foram ameaçadas de morte", diz dirigente "jurado" do MST

·        Relatório diz que 42 camponeses ameaçados de morte foram assassinados entre 2000 e 2011

·        Polícia não vê relação entre as mortes de casal extrativista e agricultor em Nova Ipixuna, no Pará

·        Após assassinatos, governador do Pará diz que segurança de agricultores "é difícil"

·        Brasil tem histórico de assassinatos e massacres no campo; veja casos emblemáticos

Após autorização do Congresso Nacional, a população do Pará será consultada, no segundo semestre deste ano, sobre a criação dos Estados de Carajás e Tapajós, que ocupariam, respectivamente, as porções leste e sudeste do território paraense atual. Se a criação for aprovada, Carajás nascerá com uma marca negativa: será o Estado com o maior índice de homicídios do país. Nenhum outro país do mundo, inclusive, apresenta um índice tão elevado de mortes.

Segundo dados do Mapa da Violência do Ministério da Justiça --referentes a 2008--, a taxa de homicídios dolosos de Carajás seria de 68,1 assassinatos por ano para um grupo de 100 mil habitantes.

O índice é superior ao registrado no mesmo ano em Alagoas (66 homicídios por 100 mil habitantes), até então o Estado mais violento do país. A taxa de homicídios em Carajás seria duas vezes maior do que a do Estado de Rio de Janeiro (33 por 100 mil) e seis vezes a de São Paulo (11/100 mil). Os homicídios em Carajás também superariam Honduras, o país mais violento do mundo, que teve 58 assassinatos para 100 mil habitantes em 2008.

Mesmo que o plebiscito aprove a divisão do Pará, a medida ainda terá de ser votada na Assembleia Legislativa do Estado. Carajás teria 39 municípios, população aproximada de 1,5 milhão de habitantes e uma área de quase 300mil km².

Das dez cidades mais violentas do país, três estão em Carajás: Itupiranga --a campeã de homicídios no Brasil--, Marabá e Goianésia do Pará, respectivamente a quarta e a sexta cidades mais violentas do país. Outros oito municípios da região possuem taxas de homicídios dolosos superiores a de Honduras: Rondon do Pará, Tucuruí, Novo Repartimento, Eldorado dos Carajás, Pacajá, Jacundá, Nova Ipixuna e Parauapebas.

Desde 1996, todos os anos o Pará é o campeão absoluto em assassinatos no meio rural. Nesses 15 anos, das 555 mortes no campo registradas em todo o país, 231 (41,6%) ocorreram no Pará, segundo relatórios da CPT (Comissão Pastoral da Terra). O Estado também está no topo do ranking de ameaças de morte, com pelo menos 30 camponeses “jurados” ao longo do ano passado. Entre 2000 e 2011, dos 42 agricultores que recebiam ameaças de morte e foram assassinados, 17 vivam no Pará.

Raio-X do Estado de Carajás

·        39 municípios

espalhados por quase 300 mil km²

·        1,5 milhão

É a população aproximada de Carajás

·        68,1 assassinatos

por mil 100 mil habitantes, é a taxa de homicídios da região de Carajás, superior a de todos os países do mundo e Estados do Brasil

 "Violência no DNA"

A violência rural no Pará se concentra justamente em Carajás. A região, originalmente povoada por comunidades tradicionais --indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos--, sofreu um crescimento populacional nas décadas de 60 e 70, quando migrantes nordestinos chegaram ao Pará para trabalhar em grandes obras financiadas pelo governo federal, como a construção das rodovias Belém-Brasília e Transamazônica, ou para trabalhar na mineração, o que gerou uma massa de trabalhadores sem-terra após o fim das obras.

Também na década de 70, o governo militar incentivou a abertura de fronteiras agrícolas nas bordas da Amazônia, o que atraiu fazendeiros das regiões Sul e Sudeste, provocando o avanço do latifúndio para as áreas ocupadas por comunidades tradicionais e posseiros.

A busca por propriedades também provocou o aumento brutal da grilagem [falsificação de documentos de propriedade] de terras. Para se ter uma ideia, se fossem considerados os registros em cartório, por conta da sobreposição de documentos, o território do Pará teria, em 2009, 490 milhões de hectares, o que representa mais de três vezes o tamanho real do Estado, segundo dados do Tribunal de Justiça (TJ).

Violência no Pará

·        Das 555 mortes

no campo registradas em todo o país, 231 (41,6%) ocorreram no Pará

·        Entre 2000 e 2011

dos 42 agricultores que recebiam ameaças de morte e foram assassinados, 17 vivam no Pará

·        30 camponeses

foram “jurados” de morte no Pará em 2010

“A violência está no DNA da estrutura social fundiária brasileira. Na raiz de tudo está a disputa pelo território. Só a democratização do acesso à terra e aos bens naturais minimizará ao extremo a violência no campo”, afirma Ulisses Manaças, liderança do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no Pará. “Os crimes acontecem onde o Estado não está atuando. É preciso ampliar a presença do Estado, não só na repressão, mas nas políticas sociais, na implantação de infraestrutura”, diz o ativista.

Em 2005, para tentar reduzir a violência rural no Pará, foi criada a Delegacia de Crimes Agrários (Deca), mas a criação do órgão não refletiu na diminuição dos crimes nos municípios. “Em todo lugar existe violência. A gente trabalha para diminuir as mortes, mas temos muitas dificuldades, como, por exemplo, para ter acesso ao local dos conflitos”, afirma o delegado José Humberto de Melo Júnior, da Deca de Marabá.

Edson Luiz Bonete, superintendente do Incra em Marabá, avalia positivamente a criação do Estado dos Carajás. “O poder público se tornaria mais presente e o controle da violência seria muito mais eficaz”, afirma. Já José Batista, advogado da CPT (Comissão Pastoral da Terra) na região, afirma que a resolução dos problemas em Carajás não passa, necessariamente, pela a criação do Estado.

“Eu não levanto essa bandeira [da criação do Estado de Carajás] porque acho que temos que resolver os problemas estruturais da região, que estão relacionados com a reforma agrária, a demarcação de terras indígenas e a proteção à comunidades quilombolas”, diz.

Onda de mortes

O tema da violência no campo voltou à tona na semana passada, quando quatro camponeses foram mortos em menos de cinco dias. Três mortes ocorreram em Nova Ipixuna (a 625 km de Belém), no sudeste paraense: o casal de castanheiros José Cláudio Ribeiro da Silva, 52, e Maria do Espírito Santo da Silva, 50, ativistas que denunciavam a ação ilegal de madeireiros, foi executado na terça-feira (24); no domingo (29), foi encontrado o corpo de Eremilton Pereira dos Santos, 25, que morava no mesmo assentamento do casal.

Na sexta-feira (27), a vítima foi Adelino Ramos, o Dinho, liderança do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), assassinado enquanto vendia verduras em Vista Alegre do Abunã, distrito de Porto Velho (RO). Dinho foi um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara --ocorrido em agosto de 1995, no qual pelo menos 12 pessoas morreram nas mãos de pistoleiros e PMs-- e também denunciava a atuação de madeireiros.


Veja onde os camponeses foram mortos

Visualizar Camponeses assassinados em um mapa maior

terça-feira, 31 de maio de 2011

Por que Marx não era Positivista? apontamentos para um estudo

POR QUE MARX NÃO ERA POSITIVISTA?
Apontamentos para um estudo
O cinismo da razão desprovida de razão vigora no ambiente acadêmico e considera Marx positivista. A seguir, apresento alguns apontamentos contra essa razão cínica que age à revelia do conhecimento. Para o positivismo de Augusto Comte, o estado positivo (a ciência, a indústria e o capitalismo) e as ciências do homem (ciências humanas), em particular a Física Social ou Sociologia, operam com leis universais e necessárias. A sociedade tem leis, tal como as leis da natureza. Compreender o funcionamento dessas leis é poder controlar e prever os acontecimentos sociais. Há uma ordem na natureza e essa ordem deve acompanhar o funcionamento da sociedade; só haverá progresso se houver ordem. Isso significa que não é possível modificar situações de opressão social, de exploração de uma classe por outra, tal como defendera Marx. O que se espera é que haja harmonização dos conflitos sociais, dar continuidade ao estado de exploração e opressão de uma classe social sobre a outra. Para o fundador do positivismo, o que vale é a manutenção da ordem social estabelecida. O capitalismo é, pois, o � �ltimo estágio, o ápice da evolução do pensamento da humanidade. Em outras palavras, Comte acreditava na submissão dos trabalhadores aos capitalistas, de tal forma, que sua doutrina positivista cumpriria a função reguladora e preparadora dos proprietários capazes de convencer os trabalhadores a respeitarem e mesmo reforçar "as leis naturais" da concentração do poder e da riqueza. Marx, no primeiro livro de O Capital, escreveu: “Augusto Comte e sua escola procuraram demonstrar a eterna necessidade dos senhores do capital; eles queriam tão bem quanto e com as mesmas razões, demonstrar a eterna necessidade dos senhores feudais” (p. 631). Ao invés de leis deterministas, que operam dentro da lógica formal, Marx afirmou que o que há são leis de tendência.

Para Marx, a história não é concebida como o desenvolvimento linear do pensamento, mas, da ação dinâmica e contraditória dos conflitos vivos entre grupos sociais. Marx não pretende, assim como Comte, criar uma teoria de reconstrução das crenças morais da sociedade. Enquanto Comte deseja manter os interesses e conquistas dos burgueses, dos capitalistas e argumenta que os trabalhadores devem manter-se resignados e aprender com as mulheres (consideradas naturalmente inferiores e fracas em relação aos homens), Marx, ao contrário, defendeu ativamente a emancipação geral: não de um indivíduo, grupo, etnia, classe social ou casta. Ele apenas identificou que essa emancipação geral não seria alcançada por nenhuma lei da boa vontade e não chegaria dos céus, mas, deveria haver um processo de enfrentamento das forças hegemônicas (políticas e econômicas).

Marx opera no âmbito de uma ontologia do ser social e Comte a partir de uma teologia profana e de uma ciência ideologizada - cientificismo - a partir de uma lógica formal que concebe a história como algo linear, cumulativa, que caminha sempre para o melhor e da ideia de neutralidade científica.

Marx, diferente de Comte, considera que a ciência não está acima do bem e do mal, portanto não é neutra mas é apropriada pelos interesses hegemônicos (econômicos e políticos) da sociedade. A partir de Hegel, ele concebe a história como sendo produzida por homens e mulheres em condições determinadas de produção social da existência que por sua vez também determinam a existência individual. Portanto, enquanto Comte afirma que a história é fruto da evolução do espírito ou pensamento humano, Marx considera que a história é o resultado de forças opostas que se enfrentam no ambito dos antagonismos presentes na produção e nas relações de produção. Nesse sentido, não é o pensamento, não é a ideia que produz o mundo, mas o contrário, o mundo que efetivamente existe - o mundo social e natural - é que produz o pensamento e as ideias.

Para ele a dialética - tese, antítese, síntese - opera por meios de categorias próprias da realidade social, dentre elas a contradição ou princípio da contradição. A apropriação do conhecimento científico e tecnológico pela classe que detém os meios de produção da existência social, ao invés de produzir uma sociedade mais plena, com progresso para todos, ao contrário, produz a danificação da vida de milhares de pessoas e da própria natureza como um todo. Assim, enquanto o positivista Augusto Comte defende a harmonia social, ou seja, a ordem institucional, que significa obediência às leis do Estado burguês, o materia lista e dialético Marx, pelo contrário, afirma que a realidade é movida pelo conflito que gera a transformação para algo novo. Sendo assim, ele é contra qualquer tipo de opressão social e a divisão da sociedade em classes sociais com interesses antagônicos e divergentes.

Mas, como disse no início, talvez, o que vigora, aquilo que é mais senso comum, até mesmo entre alguns intelectuais, são argumentos falaciosos que tentam desmerecer a filosofia de Marx que, com certeza, apresenta pontos que merecem ser devidamente criticados, mas a partir de um esforço acadêmico que transpõe o cômodo lugar da reprodução sensocomunizada de determinadas falácias. Por essa razão, considerar Marx positivista é, definitivamente, no mínimo, preguiça intelectual. Esse tipo de preguiça não acomete apenas a intelligentsa nacional, mas, é fenômeno internacional.

domingo, 29 de maio de 2011

Direito à diferença e direitos humanos

4/05/2011 - 09:32 - Atualizado em 24/05/2011 - 09:40
Joumana Haddad: "Há outra mulher árabe, que luta por liberdade"

Joumana Haddad escreve poemas eróticos e edita uma revista censurada em diversos países árabes. Poeta, tradutora e jornalista, ela diz que não deixa o Líbano porque deseja continuar lutando para mudar as condições de vida da mulher árabe

LAURA LOPES
Joumana Haddad não é uma mulher comum. Libanesa, ela luta contra os clichês e estereótipos negativos que o Ocidente criou acerca da mulher árabe, mas jamais aceitou a opressão da cultura muçulmana. Para ela, que teve acesso aos autores mais proibidos do Islã desde criança – como Marquês de Sade, Balzac e Victor Hugo –, patriotismo é absurdo e ingênuo porque as pessoas nascem em um mesmo país por pura coincidência. Ela odeia a unanimidade, a "mentalidade de rebanho", mas acredita que ser diferente só por ser diferente é um folclore bobo. "Não preciso parecer um homem para ser uma mulher. E não preciso estar contra os homens para ser a favor das mulheres", escreve.
Poeta, tradutora e jornalista (é editora do jornal An-Nahar), Joumana criou a revista Jasad (que significa "corpo", em árabe), proibida em quase todos os países árabes. A publicação fala sobre os tabus relacionados ao corpo e à sexualidade, além de cultura, literatura erótica e ensaios fotográficos. Há cerca de dois meses, ela lançou no Brasil o livro Eu matei Sherazade (editora Record, R$ 29,90), no qual conta como se impôs e venceu num mundo opressivo e majoritariamente masculino, da cultura muçulmana. Para ela, "ser árabe é como dar murro em ponta de faca. E não é possível destruir essa faca com o que é de fora. A mudança não é um produto 'importável'", escreve. É por isso, então, que continua a morar no Líbano. Com uma linguagem engraçada e despretenciosa, ela fala sobre o impacto libertador da literatura em sua vida pessoal e intelectual. Joumana lê desde pequena, e também escreve desde pequena. O primeiro poema foi aos 12 anos. Aos 40 anos, publicou vários livros, inclusive de poesia erótica, quatro deles já traduzidos para o francês, italiano e espanhol. Confira a entrevista que esta árabe atrevida, que virá ao Brasil em novembro, para a Fliporto (Festa Literária Internacional de Pernambuco), concedeu a ÉPOCA.
 ÉPOCA – Como é a vida da mulher árabe média, a mãe de família que não é subjugada pelo marido nem pela religião, e também a vida de quem luta, critica e tenta se libertar do Islamismo radical?
Joumana Haddad –
Há muitos tipos de mulheres árabes que vivem diferentes vidas. Algumas são realmente oprimidas, enquanto outras se esforçam pela emancipação e lutam por uma vida melhor, para elas e outras mulheres. Obviamente, a primeira categoria representa a maioria, infelizmente. Mas isso não anula o fato de que há outra mulher árabe, e que ela está participando de uma luta magnífica. Ela merece a atenção do Ocidente, a fim de equilibrar todos os clichês e estereótipos negativos que existem no mundo sobre a mulher árabe. ÉPOCA – Você diz que o patriotismo cega, que ele é a expressão de um romantismo ingênuo. Aqui no Brasil, muitas vezes somos acusados – pelo próprios brasileiros – de não sermos patrióticos, de valorizar demais o que é estrangeiro. Qual seria um meio termo positivo no meio desses dois extremos? Joumana – Eu penso que nós nascemos em um mesmo país por pura coincidência. Nós nascemos sob uma religião em particular também por coincidência. Estas são identidades herdadas, nós não as escolhemos. Então é muito importante que nós as questionemos em um certo ponto de nossas vidas e decidamos por nós mesmos quem e o que queremos ser. Nesse sentido, eu acho que o patriotismo é ingênuo e absurdo. Eu prefiro amar, adotar e pertencer a todo o universo em vez de pertencer apenas a um lugar. ÉPOCA – O que exatamente é publicado na Jasad? Textos e artigos culturais sobre o corpo em geral? Literatura erótica? Ensaios de foto? Joumana – Tudo isso que você mencionou é publicado na Jasad, assim como reportagens sobre tabus relacionados ao corpo e à sexualidade nas sociedades e culturas árabes atuais, temas como virgindade, homossexualismo, poligamia etc.  ÉPOCA – Ao lançar a Jasad, em 2008, você disse que recebeu inúmeros emails e cartas com críticas pesadas (dizendo que você era imoral, pecadora, corrupta e corruptora, depravada, decadente, criminosa etc, e até que você deveria ser queimada com ácido...). Mas que essas críticas só serviram para te deixar invulnerável a elas. Que tipo de represália você sofre ou sofreu no meio intelectual e pelo poder político e religioso do Líbano? Joumana – A resistência à Jasad é muito menor agora, porque ela se provou ser um fato, uma realidade que não por ser cancelada. Obviamente ainda há muitas pessoas que a consideram pecaminosa e imoral, e eu ainda recebo minha dose diária de insultos. Mas desde o começo eu decidi não ser intimidada por esses ataques, porque eu estava apaixonada pelo projeto, e convencida de que ele era necessário. Por outro lado, a revista tem um bom número de apoiadores, talvez não publicamente, porque as pessoas ainda têm medo das condenações sociais e religiosas. Mas muitas mulheres e homens me mandam emails de suporte todos os dias, me agradecendo por ter criado a revista. É daí que vem parte da minha força e perseverança.  ÉPOCA – Por que você acha que a Jasad não foi censurada no Líbano?  Joumana – A Jasad foi censurada em quase todos os países árabes que você possa imaginar, até o site da revista foi bloqueado em alguns países. Mas ela não foi censurada no Líbano por duas razões principais: primeiramente, o Líbano goza uma maior liberdade de expressão do que a maioria dos outros Estados árabes. E, segundo, eu tive a sorte de ter sido protegida pelos ministros da Informação e do Interior, intelectuais iluminados que acreditam nos direitos humanos e os defendem.  ÉPOCA – Você não quer deixar o Líbano, mas vive viajando. Qual é a sua relação com as culturas ocidentais e orientais e como usa isso em sua luta diária contra a condição da mulher árabe em seu país?  Joumana – Eu me considero uma cidadã do mundo no sentido literal da expressão. Eu pertenço a muitos lugares ao mesmo tempo, mas eu pertenço a mim mesma em primeiro lugar. Eu sou meu país e minhas raízes, então eu carrego o mundo comigo e dentro de mim onde quer que eu vá. Eu viajo porque eu estou sempre com sede de descobrir novas pessoas e culturas, e porque eu acredito que essa interação é o que dá verdadeiro sentido à vida. Eu não suporto pessoas que têm a cabeça fechada. Para mim, vida é uma série infinita de janelas abertas e horizontes sem fim. E, se eu estou no Líbano, não é por causa das coisas de que eu gosto, mas por causa das coisas de que eu não gosto e gostaria de contribuir para mudá-las.  ÉPOCA – A sua posição não é contra uma religião, mas contra o radicalismo criado por ela, que castra as liberdades e impõe comportamentos destrutivos... Joumana – Sou realmente contra religião, e contra a doutrinação, a ideologia e o inevitável integralismo que ela carrega. Meu Deus é minha liberdade. Meu Deus sou eu mesma e as pessoas que amo. Eu sou muito espiritual, mas muito anti-religiosa, especialmente desde que eu me convenci que as três grandes religiões monoteístas não têm feito nada além de dividir as pessoas, e também são muito patriarcais e condescendentes com as mulheres.
 
 ÉPOCA – Para terminar, deixe um recado para as mulheres brasileiras.
Joumana –
Eu acredito que seria a mesma mensagem que eu sempre envio a mim mesma e às mulheres em todo o mundo: acredite em você, celebre sua força como mulher. Nunca diga: "Esse mundo é meu também, entregue-me". Em vez disso, "Esse mundo é meu, eu vou tomá-lo".


terça-feira, 12 de abril de 2011

DELIBERAÇÕES PARA 13.04 E COMENTÁRIOS SOBRE 06.04.2011


Parabéns Humberto e Wagner, pela qualificada contribuição, em especial pela condução dos trabalhos do último encontro. Abaixo, apresento algumas deliberações para o próximo encontro e teço alguns apontamentos relacionados às questões exógenas e endógenas do debate desenvolvido na manhã de 06.04.2011.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS E FIM DO MUNDO EM 2012

Olá,

Para o próximo encontro, 06.04.2011, o debate será sobre o Prefácio, Introdução e Posfácio do livro A estrutura das revoluções científicas, de Thomas S. Khun, que estão na pasta da disciplina Fundamentos da Ciência, na fotocopiadora do IC-IV.
A coordenação dos trabalhos será de responsabilidade dos colegas Humberto Capai e Wagner Kirmse. Isso não significa apresentação de seminário, mas condução da discussão, da organização do debate e, se possível, levantar algumas problematizações apresentadas pelo autor (Thomas Kuhn), a partir da leitura do texto.

terça-feira, 22 de março de 2011

A Teoria darwinista em Xeque


Solange Azevedo
N° Edição:  2158 | 18.Mar
Atualizado em 22.Mar.11 - 14:35
Samuel Bowles
"Charles Darwin estava errado"
Economista americano critica a teoria da evolução e diz que os seres humanos progrediram graças aos grupos mais altruístas

GENEROSIDADE
Bowles afirma que o mundo está se tornando mais altruísta
O americano Samuel Bowles, 71 anos, é dono de um currículo invejável. Ph.D. em economia pela Universidade Harvard, onde também foi professor durante quase uma década, atualmente ele dirige o Programa de Ciências Comportamentais do Instituto Santa Fé, na capital do Novo México, e leciona na Universidade de Siena, na Itália. Autor de diversos livros, Bowles foi conselheiro econômico em Cuba, na Grécia, do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela e dos ex-candidatos à Presidência dos Estados Unidos Robert F. Kennedy e Jesse Jackson. Seus estudos sobre a evolução genética e cultural dos humanos têm repercutido em publicações de prestígio, como as revistas “Nature” e “Science”, porque põem em dúvida nada menos do que a teoria da evolução, de Charles Darwin, e a ideia de que os homens são inteiramente egoístas. “O comportamento humano é muito mais complexo do que a teoria da evolução supõe”, diz Bowles. “A seleção natural pode, sim, produzir espécies altruístas e cooperativas.”

"Filósofos e advogados fizeram e ainda fazem leis
baseadas no pressuposto de que as pessoas
são completamente egoístas”



“Há muita gente fazendo coisas incríveis para
defender uma causa. As manifestações nas ruas do Cairo,
no Egito, são um claro exemplo disso"
 



Istoé - O sr. defende a ideia de que a gentileza foi fundamental para a evolução humana. Por quê? Samuel Bowles - A teoria da sobrevivência do mais gentil é uma crítica à teoria da sobrevivência do mais apto, de Charles Darwin. Diversas pesquisas feitas nos últimos anos, muitas delas por mim, têm mostrado que a seleção natural pode, sim, produzir espécies altruístas e cooperativas – em vez de seres humanos inteiramente egoístas. Darwin estava errado. Istoé - Como o sr. chegou a essa conclusão? Samuel Bowles - Por inúmeros fatores. A maioria das pessoas, em certas situações, é completamente altruísta. Muitas vezes, elas são generosas inclusive com estranhos e são extraordinariamente corajosas ao servir suas nações ou suas famílias. Como quando ocorrem desastres naturais ou para defender uma causa. Essa evidência de que os seres humanos não são inteiramente egoístas tem sido bastante estudada recentemente. Há diversos experimentos feitos em laboratórios que mostram que indivíduos que recebem dinheiro para dividir com outras pessoas, em geral, são generosos. Na maioria das vezes, eles fazem isso anonimamente, quando não estão sendo vigiados. Nesses experimentos, a maioria das pessoas não age de maneira egoísta, como costumávamos imaginar no passado, à luz da teoria da evolução. Isto é - Como as pessoas agem? 
Samuel Bowles - Às vezes, são incondicionalmente altruístas, do tipo Madre Tereza de Calcutá. Em outros momentos, só são altruístas enquanto outras pessoas do grupo também agem assim. As pessoas têm compromissos morais. Claro que, em muitas situações, agem por interesse próprio. O egoísmo é uma parte importantíssima do repertório humano e não pode ser ignorado. Mas é fundamental ter em mente que o comportamento humano é muito mais complexo do que a teoria da evolução supõe. Isto é - Quais sociedades o sr. ­es­­tudou? Samuel Bowles - Tive o privilégio de estudar um grande número de sociedades em várias partes do mundo. Junto com um time de economistas e antropólogos, estudei 15 grupos na África, na Ásia e em países da América Latina, como Peru, Equador e Paraguai. Nesse experimento, demos dinheiro para algumas pessoas dividirem com outras. A regra era: se a segunda pessoa aceitasse a quantia que a primeira ofereceu, o jogo terminaria. Mas, se rejeitasse, as duas não ganhariam nada. Supondo que uma pessoa egoísta, que recebeu US$ 10, ofereça apenas US$ 0,50, se a segunda pessoa também é egoísta, ela vai aceitar achando que é melhor ganhar 50 centavos do que sair com os bolsos vazios. Mas isso não ocorre com frequência. Ofertas pequenas, quase sempre, são rejeitadas. E as pessoas rejeitam por raiva, para punir o egoísta. Alguém pode pensar: ‘Eram só US$ 10’. Em experimentos com grandes quantidades de dinheiro os resultados têm sido os mesmos. Por generosidade ou por medo da rejeição, quase todas as ofertas ficam próximas de 50%. Estudos como esse foram feitos em pelo menos 35 universidades e 40 países. Isto é - Os resultados o surpreenderam? Samuel Bowles - Não, pois tenho estudado o comportamento humano durante toda a minha vida. Se assistirmos à tevê, vemos que há muita gente fazendo coisas incríveis e perigosas para defender uma causa. As manifestações nas ruas do Cairo, no Egito, são um claro exemplo. Talvez, muitos economistas se surpreendam porque acreditam que o ‘homem econômico’ é egoísta. Muitos biólogos também, porque acreditam que a seleção natural só é capaz de produzir animais egoístas. Essa interpretação equivocada da teoria de Darwin é mostrada num livro que será lançado em breve, do qual sou coautor, chamado “Uma Espécie Cooperativa: Reciprocidade Humana e sua Evolução”. Istoé - A espécie humana é essencialmente cooperativa? Samuel Bowles - Exatamente. A questão central não é por que pessoas egoístas agem de maneira generosa, mas como a genética e a evolução cultural produziram uma espécie em que um número substancial de pessoas se sacrifica para manter as normas éticas e para ajudar, inclusive, pessoas estranhas. A seleção natural e a transmissão genética de pais para filhos podem, sim, produzir espécies cooperativas. Os primeiros seres humanos – de 50 mil anos atrás, dez mil anos atrás e assim por diante – viveram em condições adversas, de variações climáticas e desafios diante de outros grupos, em que indivíduos egoístas teriam sido bastante prejudiciais na competição pela sobrevivência. Os grupos mais cooperativos foram mais capazes de se reproduzir em larga escala. Creio que essa foi a razão de a espécie humana ter se tornado cooperativa. Isto é - Há sociedades mais altruístas e outras menos? Samuel Bowles - Há algumas sociedades em que, em tese, todo mundo oferece a metade para a outra pessoa e outras em que oferece 40% ou menos. Mas, surpreendentemente, também há locais em que as pessoas oferecem mais da metade. Nós, estudiosos, ainda não sabemos o suficiente para generalizar o grau de altruísmo no mundo. O que sabemos é que, em geral, menos de um terço das pessoas é egoísta. Ao contrário do que diz o senso comum, as sociedades mais avançadas economicamente – como os Estados Unidos e países europeus – não são mais nem menos egoístas do que países africanos, asiáticos ou latino-americanos. Isto é - A teoria da sobrevivência do mais apto e a da sobrevivência do mais gentil é mais ou menos presente, dependendo da sociedade estudada? Samuel Bowles - Não há uma única sociedade que eu estudei e onde experimentos tenham sido feitos que tenham confirmado a hipótese do “homem econômico egoísta”. Posso dizer, com certeza absoluta, que não há uma única sociedade já descoberta na qual os pressupostos dos economistas ou os da seleção natural – de que a espécie humana é inteiramente egoísta – tenham sido confirmados. O que temos são vários graus e diferentes tipos de altruísmo coexistindo com o autointeresse. Isto é - O altruísmo pode ser aprendido? Samuel Bowles - Certamente. Acreditava-se, no passado, que o comportamento altruísta ficava restrito a membros de uma mesma tribo ou vila ou limitado a grupos linguísticos. Mas, agora, sabemos que o altruísmo pode se estender pelo mundo todo. Muitos de nossos valores são influenciados pela nossa constituição genética. Mas também somos seres culturais, aprendemos através de exemplos – com as lições de nossos pais, professores, vizinhos, líderes nacionais e internacionais. Tenho 71 anos. Na minha juventude, era impossível imaginar que um afro-americano seria eleito presidente dos Estados Unidos, já que alguns tipos de espírito cívico não existiam nos anos 1950 e 1960. Isto é - De acordo com a sua teoria, como o comportamento altruísta influenciou a evolução cultural e genética dos humanos? Samuel Bowles - A pessoa é altruísta, de acordo com biólogos e também segundo a minha definição, se ajuda os outros sacrificando a si mesma. Para os biólogos, isso significa ajudar as outras pessoas a se adaptar, produzir mais crianças e cuidar delas até que elas próprias possam se reproduzir. Para os biólogos, no entanto, esse tipo de sacrifício só seria possível entre irmãos ou parentes próximos. Porque, se a pessoa abrir mão do próprio sucesso reprodutivo para ajudar um desconhecido, seu tipo altruísta é eliminado. O problema é que essa teoria desconsidera uma questão importantíssima: seres humanos vivem em grupos e nós sobrevivemos por causa disso. Se estivéssemos num grupo em que todos são egoístas, ele funcionaria precariamente e acabaria extinto. Isto é - Países e empresas poderiam ser mais bem administrados à luz dessa teoria? Samuel Bowles - Claro. Filósofos e advogados fizeram e ainda fazem leis baseadas no pressuposto de que as pessoas são completamente egoístas. Isso é um erro. Acredito que esse equívoco nos remeta ao filósofo Nicolau Maquiavel (1469-1527). Em um de seus escritos, Maquiavel afirmou que todo mundo é perverso, que a raiva torna as pessoas engenhosas e que a lei as tornaria boas. Pesquisas mostram que tratar as pessoas como egoístas pode ser um incentivo para que elas ajam de maneira egoísta. 

terça-feira, 8 de março de 2011

A MORTE DO CISNE

A Escola de Samba Vai-Vai, campeã paulista do carnaval de 2011, homenageou o Maestro João Martins. O diálogo entre a arte erudita e a arte produzida de forma espontânea no cotidiano das sociedades tem produzido, ao longo da história, expressões artísticas que desmistificam a tese dos radicais que ora defendem a pureza das produções autóctones, ora desconsideram a possibilidade de apropriação, por parte das comunidades, da diversidade do patrimônio cultural que ao longo de séculos foi considerado privilégio de uns poucos escolhidos.
O fato de uma criança oriunda de um seguimento pauperizado da classe trabalhadora só poder ter acesso às expressões culturais próprias da sua comunidade é, no mínimo, crime de lesa humanidade. A apropriação deste ou daquele conteúdo cultural, em particular os restritos a determinados ambientes sociais, não significa, em hipótese alguma, uma diminuição, degradação da expressão artística local. Pelo contrário. Para citar apenas um exemplo: A morte do Cisne

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Documentário História da Matemática

Do lado esquerdo, logo após o item Periódicos Acadêmicos, é possível acessar Vídeos, dentre eles, o documentário A história da matemática (BBC).

A busca por vida extraterrestre:

"Seríamos todos nós marcianos?"

El País
O lago Mono, na Califórnia, onde a Nasa encontrou uma bactéria diferente de tudo o que já foi visto
O lago Mono, na Califórnia, onde a Nasa encontrou uma bactéria diferente de tudo o que já foi visto
Cientistas da NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço, a agência espacial dos Estados Unidos) anunciaram recentemente que descobriram um organismo que utiliza arsênico, em vez de fósforo, no seu metabolismo. O geólogo Dirk Schulze-Makuch deu uma entrevista a “Der Spiegel” a respeito dessa descoberta e da probabilidade de que a vida possa existir em outros planetas.

Spiegel: Cientistas da Nasa descobriram estranhas bactérias no Lago Mono, na Califórnia. Os micróbios incorporam arsênico, que geralmente é venenoso para os seres vivos, às suas células. Essas bactérias são oriundas de um outro planeta?

Dirk Schulze-Makuch: Não, essa hipótese pode ser descartada. As bactérias que utilizam arsênico não surgiram independentemente de outros organismos na Terra. Assim como todos os micróbios, elas se multiplicam melhor quando existe uma quantidade suficiente de fósforo por perto. Elas só usam arsênico quando não há fósforo suficiente – mendicantes não podem se dar ao luxo de escolher. As bactérias com arsênico são um exemplo maravilhoso da adaptabilidade dos micro-organismos.

Spiegel: O que essa descoberta significa para a busca por formas de vida inteligente?

Schulze-Makuch: A bactéria que contém arsênico nos ajuda a ampliar os nossos horizontes. Se é possível encontrar organismos tão exóticos aqui na Terra, que criaturas estranhas não poderiam existir em outros planetas? Nós temos que nos livrar dessa ideia de que formas de vida alienígena serão parecidas com aquilo que conhecemos na Terra.

Spiegel: Você pode imaginar que tipo de diferença existiria entre a vida terrestre e as formas de vida extraterrestre?

Schulze-Makuch: A nossa fixação com a noção de que o oxigênio é essencial à vida já é uma ideia limitada. Esse elemento agressivo provoca danos às nossas células na forma de radicais livres. Talvez organismos que habitem outras regiões do espaço tenham encontrado uma alternativa mais suave. Quando nós enviarmos sondas espaciais a outros mundos, devemos esperar o inesperado. A vida é capaz de surgir em qualquer lugar: em mares venenosos ou em nuvens quentes.

Spiegel: E onde as bactérias resistentes ao arsênico viveriam?

Schulze-Makuch: Micróbios comedores de arsênico provavelmente se sentiriam em casa no nosso planeta vizinho, Marte. As condições ambientais marcianas são bastante apropriadas para eles. Dados obtidos por sondas robotizadas que pousaram em Marte podem ser de fato interpretados como evidência de vida bacteriana. No entanto, seria possível que qualquer forma de vida eventualmente encontrada em Marte não fosse realmente alienígena, mas sim um tipo de parente nosso.

Spiegel: Como assim?

Schulze-Makuch: Há quase quatro bilhões de anos, Marte era um planeta bem apropriado à sustentação da vida, dotado de enormes rios e lagos. Naquela época, os primeiros organismos primitivos apareceram na Terra. Essas formas de vida unicelular provavelmente chegaram ao nosso vizinho, o planeta Marte, viajando em meteoritos e se estabeleceram por lá. É possível que descendentes daquelas bactérias primitivas possam ter sobrevivido em rachaduras e frestas do terreno marciano até hoje. E a possibilidade oposta é igualmente fascinante: a vida poderia ter começado em Marte e, a seguir, chegado à Terra em um meteorito. Isso faria surgir a questão: seríamos todos nós marcianos?

Spiegel: Que planeta no nosso sistema solar tem maior probabilidade de sustentar uma forma de vida que contraste significativamente com a vida na Terra?

Schulze-Makuch: O distante Titã, uma lua de Saturno, parece ser completamente diferente para nós. A temperatura na sua superfície é de 160ºC negativos, e a sua atmosfera não contém oxigênio. Em vez de água, os seus lagos são formados de gás natural em estado líquido. Metano cai do céu em forma de chuva, e a paisagem faz lembrar o cenário que se seguiria a um vazamento de petróleo na Antártida. Se descobríssemos vida lá, ela certamente seria completamente diferente da vida como a conhecemos na Terra.

Spiegel: E quais são as probabilidades de que haja vida em Titã?

Schulze-Makuch: Surpreendentemente elevadas! Na ilha de Trinidadee, no Caribe, existe uma reserva natural de asfalto chamada Pitch Lake, que é alimentada por substâncias oleaginosas oriundas da crosta terrestre. É uma atração turística. As condições são parecidas com aquelas de um lago de Titã. A minha equipe e eu recentemente coletamos amostras no local em busca de indícios de vida.

Spiegel: E que resultados vocês obtiveram?

Schulze-Makuch: Para a nossa surpresa, nós encontramos massas de bactérias que transformaram longas cadeias de carbono em metano no lago de asfalto. Ninguém sabe ainda como essas criaturas foram capazes de sobreviver na ausência praticamente total de água. E se considerarmos que tantos micro-organismos sobrevivem no lago de asfalto, isso também deve ser possível em Titã.

Spiegel: Mas isso está longe de se constituir em uma prova.

Schulze-Makuch: É claro que não é prova alguma. Nós teremos um quadro mais claro quanto a isso pela primeira vez quando uma missão feita com uma sonda robotizada explorar Titã. A descoberta das bactérias dotadas de arsênico e das bactérias do asfalto demonstram, no entanto, que quando a vida for descoberta em um outro planeta, ela encontrará uma maneira bioquímica de sobreviver. O único problema é que, infelizmente, nós não sabemos como exatamente a vida teve início na Terra – e muito menos como ela poderia se desenvolver em um outro planeta.

Entrevista conduzida por Olaf Stampf

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Escola, educação escolar e apropriação da cultura

Ontem, no nosso último encontro do ano, recebemos o Prof. Dr. Laércio Ferraciolli, integrante do PPGE/UFES (linha de pesquisa Educação e diversidade) e também do Programa de Pós-Graduação (mestrado e doutorado) em Física.
Nossa conversa girou em torno do livro A estrutura das revoluções científicas, (Thomas Kuhn). Ferraciolli iniciou o encontro com uma breve abordagem sobre a história do livro de Kuhn e relatou a polêmica que movimentou parte considerável de cientistas logo após a publicação, em 1962. A ideia de paradigma abalou as estruturas da história da ciência e isso foi sentido não apenas no âmbito das ciências da natureza (física, química, biologia), mas, também, no campo das ciências sociais.

Alguns pontos debatidos:
1) realizar uma terceira cultura (Snow) que permita o diálogo entre a cultura científica e não científica. Esse diálogo pode evitar muitos problemas em relação ao conhecimento acadêmico e da sociedade como um todo. Atualmente a ciência é divulgada pelos meios de comunicação que, com características próprias da indústria cultural e da sociedade do espetáculo, transformam-na (a ciência) em um entretenimento ou um conhecimento para poucos. A caricatura do cientista como alguém sem vida pública ainda vigora. A indústria cultural, com suas revistas e demais aparatos de divulgação, tenta, ao máximo, fazer com que esse imaginário se perpetue. Contudo, há uma contradição nesse processo e procedimento: 1) ora a ciência é vista como o ápice do progresso da humanidade e os cientistas aparecem como substitutos de Deus, haja vista como os programas de entretenimento ou mesmo os telejornais e demais programações televisivas se apropriam da figura do cientista e da ciência para legitimarem determinados discursos que fortalecem determinadas políticas; 2) há, também, uma tentativa, mesmo que velada, por parte dos operadores e gerentes dessas redes responsáveis pela divulgação de parte das "descobertas" científicas, a tornar a ciência algo misterioso, não possível de se compreender e, também, como a vilã mor de todos os males da humanidade. Ao mesmo tempo que se enaltece, percebemos o movimento contrário de negação da ciência. Nesse sentido, como carecemos de uma devida, transparente e necessária alfabetização científica, a esfera pública em geral não consegue sair das malhas dessa emaranhada rede de sentidos múltiplos que mais confunde do que ajuda a compreender os procedimentos do universo científico, o fazer do cientista e as suas relações com a sociedade, com a política, com a cultura e a existência como um todo.
2) Necessidade de uma alfabetização científica. A educação básica carece desse necessário processo de apropriação das bases que fundam o fazer científico: compreensão dos conceitos, das categorias, da relação extra-ciência - políticas, econômicas, culturais etc.
3) A apropriação indevida de conceitos oriundos da física ou de outras área das ciências da natureza (física, química, biologia) transpostos de forma aligeirada, sem o devido cuidado em conhecer o real significado que tais conceitos ou categorias têm para o campo de origem. A transposição de conceitos como complexidade e caos foi um exemplo citado. Será que a teoria da complexidade e/ ou teoria do caos, tal como se apresentam no campo da física teórica pode ser aplicada, ipsis liteis, ao campo das ciências humanas? Por que realizar essa transposição? As ciências da educação não podem se utilizar de conceitos que são próprios da área? Será que quem os utiliza efetivamente sabe o que significam?
4) A ciência não é autoritária. Autoritário é o senso comum. Por isso a necessidade de se conhecer, ter a devida alfabetização científica (bem como estética, filosófica, tecnológica);
5) A escola deve se preocupar com a forma de apropriação dos saberes escolares. As crianças chegam à escola interessadas em realizarem uma interatividade entre as áreas, os saberes. Será que é possível, hoje, a escola ficar ainda no modelo do cuspe e giz? O que fazer para que haja esse processo de interação entre as novas gerações e os atuais e possíveis procedimentos metodológicos? O que a escola pode fazer e precisa oferecer?

QUESTÕES IMPERTINENTES

1) Para fazer ciência é necessário que o seu resultado seja uma aplicação imediata, relacionado à prática ou é possível fazer ciência com um perspectiva não imediatista, na qual a Teoria apareça como ancila da prática? (Pergunta da Ilza Côco)

2) É fundamental a apropriação da linguagem produzida pela comunidade científica, pois é a partir de uma determinada linguagem que os cientistas dialogam entre si. Contudo, não é a linguagem que constrói o mundo, mas, dela não podemos prescindir enquanto seres humanos. (Ilza Côco);

3) Os alunos do ensino médio chegam à universidade com uma grande defasagem em termos de conhecimento básico e isso dificulta a realização de um trabalho mais apropriado ao universo acadêmico científico. É possível mudar essa realidade? Vamos esperar que o ensino médio melhore ou vamos tomar a dianteira desse processo?

4) Há um déficit bastante alto em relação aos profissionais das engenharias, da física, da matemática. Há poucos engenheiros no Brasil; há poucos físicos e poucos matemáticos. Assim como há poucos professores de física e matemática. Por que isso acontece? Por que nossos alunos não escolhem essas profissões?

5) A física e a matemática são difíceis ou a forma como são ministradas na educação básica é que afasta os alunos e isso gera um círculo vicioso?

6) Afinal, a formação continuada do professor deve ser em serviço, e com sua pesquisa voltada eminentemente para os problemas relacionados à sua prática imediata ou pode haver um afastamento, com uma pesquisa não necessariamente relacionada ao seu cotidiano ordinário?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Visita do Prof. Dr. Maurício Abdalla

Algumas questões debatidas com o Prof. Abdalla: legitimidade do discurso científico, academia/instituição científica como espaço de produção do discurso científico; delimitação entre ciência e não-ciência; diferença entre ciências humanas e ciências naturais etc.

Na ânsia de se constituir como um campo científico, as ciências humanas importam princípios, métodos, categorias e conceitos próprios das ciências da natureza (física, química, biologia). Ao mesmo tempo em que se critica a ciência, ou mesmo a ciência moderna, uma parcela considerável de cientistas sociais, seduzidos pelos avanços teóricos e pelas discussões que ocorrem no campo das ciências da natureza, acabam por reproduzir, mecanicamente, categorias e conceitos apropriados apenas para esse campo específico. Sem contar que as transposições conceituais e categoriais são realizadas de forma superficial e anacronicamente dadas como verdades inabaláveis. 
As ciências sociais, ou melhor, a sociologia teve início justamente com essa importação da matemática e da física (Comte considerava a sociologia uma física social) para se constituir como ciência de fato. A agenda pós-moderna e as teorias pós-críticas, ao criticarem a ciência moderna (mecanicismo) e para se desvincularem do positivismo, acabam por cair no ponto extremo. Criticam a ciência moderna (com todo direito que é próprio do campo acadêmico e científico), mas, continuam com o complexo de patinho feio, pois ao sentirem a necessidade de se fundamentar epistemologicamente, precisam mostrar, para o universo acadêmico, que possuem legitimidade, statuto epistemológico. Este, por sua vez, é importado da Física (quântica, caos, complexidade), da Biologia (autopoiesis, determinação gênica) etc. Não por acaso, é possível afirmar que a agenda pós-moderna e o neopositivismo são antipodas solidários (DELLA FONTE, 2010 - cf. artigo nesse Blog).   
A carência de fundamentação filosófica e científica dificulta uma relação menos passiva por parte do público acadêmico que incorpora os sedutores discursos pós de forma heterônoma. Em linhas gerais, tem havido uma recorrente equiparação, transposição linear e mecânica de procedimentos, categorias, conceitos próprios das ciências naturais para o campo das ciências humanas e uma insistente tentativa, por parte de intelectuais responsáveis pela formação das futuras gerações de professores e professoras, em tomar inexorável essa perspectiva pós-crítica, simplesmente porque o discurso desejoso assim o quer.  
Continua...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cosmologia: estamos sozinhos no universo?

São Paulo, sexta-feira, 19 de novembro de 2010


Europeus flagram o 1º planeta de outra galáxia
Astro é um gigante gasoso, como Júpiter, mas 25% maior do que ele
Objeto orbita estrela que hoje pertence à Via Láctea, mas estava em outra região galáctica bilhões de anos atrás


Concepção artística do planeta HIP 13044 b, que orbita estrela vinda de outra galáxia

GIULIANA MIRANDA
DE SÃO PAULO

Nem mesmo a Via Láctea está livre dos penetras. Astrônomos europeus acabam de encontrar um planeta vindo de outra galáxia bem na nossa vizinhança cósmica.
Embora a "pancadaria" sideral, com direito a colisões e até fusões entre várias galáxias, não seja novidade para os cientistas, essa foi a primeira vez que eles encontraram um planeta que tenha sobrevivido a tais pancadas.
Batizado de HIP 13044 b, o objeto foi detectado com o auxílio de um supertelescópio no Chile. O intruso fica a cerca de 2.000 anos-luz da Terra e é um gigante. Tem pelo menos 1,25 vez o tamanho de Júpiter, que é o maior planeta do Sistema Solar.
Mas como os autores do estudo, que sairá em edição futura da revista "Science", sabem que o planeta não é "nativo" da Via Láctea?
Eles chegaram a essa conclusão baseados na estrela que ele orbita: a HIP 13044.
O astro fica em uma região distante da Via Láctea conhecida como corrente Helmi. Nesse local, as estrelas têm parâmetros orbitais bem particulares, que são diferentes dos da maioria das outras estrelas na vizinhança do Sol.
Para os pesquisadores, isso indica que elas faziam parte de uma galáxia que foi engolida pela Via Láctea entre cerca de 6 bilhões e 9 bilhões de anos atrás.

REVIRAVOLTA
Na opinião dos cientistas, é uma surpresa das grandes que o planeta tenha sobrevivido à fase de expansão de sua estrela, uma gigante vermelha -estágio em que certas estrelas muito antigas ficam "inchadas", quando seu combustível nuclear começa a se tornar escasso.
"A descoberta é intrigante se considerarmos o futuro distante do nosso próprio Sistema Solar, em que esperamos que o Sol também se torne uma gigante vermelha daqui a 5 bilhões de anos", disse Johny Setiawan, um dos autores do trabalho, do Instituto Max Planck de Astronomia (Alemanha).
O fato de a HIP 13044 ser pobre em metais -com apenas 1% do que existe no nosso Sol, por exemplo- pode provocar uma reviravolta nas principais teorias de desenvolvimento planetário.
De acordo com elas, existe uma relação direta entre a composição química das estrelas e a quantidade de planetas em seu entorno.
Nesse caso, quanto mais metais existirem na estrela, mais "filhotes" planetários ela acabaria tendo.
Nos últimos 20 anos, os pesquisadores investiram pesado na descoberta de planetas fora do Sistema Solar -hoje, são mais de 500. Nenhum, porém, orbitava uma estrela com tão pouco metal.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Encontro com Dr. Abdalla


  1.  O convidado de hoje, o Prof. Maurício Abdalla, prorrogou sua visita para o próximo encontro, dia 24.11.2010.
  2. Na última parte dessa edição (17.11.2010) encontra-se o vídeo O Gênio de Charles Darwin, de Richard Dawkins, que assistimos hoje pela manhã. O texto a ser debatido continua sendo o artigo do Prof. Abdalla, mas, acrescentaremos a discussão sobre o vídeo de Richard Dawkins no debate, em particular a questão relativa ao tratamento com as evidências, bastante enfocado no argumento de Dawkins, bem como a tese sobre o Gene Egoísta.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vídeo-Palestras e Manifestação estudantil em Londres

VIDEO-PALESTRAS ACADÊMICAS
10/11/2010 - 17h56

Pelo menos 32 manifestantes são presos durante protestos em Londres

Do UOL Notícias*
Em São Paulo
Policiais e manifestantes entram em confronto na sede do Partido Conservador em Londres 
Pelo menos 32 estudantes foram presos nesta quarta-feira (10) em Londres (Reino Unido) durante manifestações na sede do Partido Conservador contra aumento nas taxas de anuidade nas universidades britânicas.
De acordo com um porta-voz da polícia citado pelo jornal "The Guardian", os estudantes foram detidos por danos ao patrimônio ou atitude ofensiva, entre outras acusações.
Mais cedo, o prefeito de Londres, Boris Johnson, havia afirmado que "uma pequena minoria abusou vergonhosamente de seu direito de protestar".
Os estudantes se reuniram diante da sede do partido governista para criticar a política de corte de gastos promovidas pelo premiê David Cameron, que afeta também o ensino superior.

Invasão e violência

Alguns manifestantes invadiram a sede do partido, no bairro de Westminster, colocaram fogo em cartazes na rua e quebraram os vidros do prédio.

Sistema "mais justo"

O ministro de Universidades, David Willetts, defendeu o novo sistema de taxas, argumentando que ele será mais justo que o atual e que ajudará os estudantes mais pobres, já que o governo lhes emprestará o dinheiro da anuidade.

Os estudantes não teriam que pagar nenhuma taxa inicialmente - o empréstimo de anuidade poderia ser quitado quando os formandos já estivessem ganhando um salário anual a partir de 21 mil libras, conta o ministro.
A polícia conseguiu liberar o local depois de uma hora, agredindo os estudantes com cacetetes para forçá-los a deixar o prédio. Repórteres da BBC no local relatam que projéteis foram jogados contra a polícia. A Scotland Yard reportou 10 feridos leves, entre eles três policiais.
Em outros pontos da capital britânica, a manifestação convocada pela União Nacional de Estudantes (NUS) reuniu milhares de estudantes e professores universitários de forma pacífica.
De acordo com a polícia, cerca de 20 mil pessoas protestaram; os organizadores relatam presença de 50.000 manifestantes. Trata-se da maior manifestação organizada desde o início do mandato de Cameron, em maio passado.
"Os políticos parecem 'nem estar aí'. Eles deveriam pegar dinheiro das pessoas que ganham muito, que recebem salários de sete dígitos, mas não de estudantes que não têm dinheiro", declarou Anna Tennant-Siren, da Universidade de Ulster em Coleraine, na Irlanda do Norte.
Segundo informações da BBC, o piso das anuidades passaria de 3.290 libras (R$ 9 mil) para 6 mil libras (R$ 16,5 mil), e algumas universidades poderiam cobrar até 9 mil libras (R$ 24,8 mil) em “circunstâncias excepcionais”, se oferecem, por exemplo, bolsas e programas de incentivo a estudantes mais pobres.
*Com informações agências internacionais, "The Guardian" e "The Telegraph"

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